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Por Madson de Moraes

Recentemente, os relatos de interferência das altas doses de biotina nos resultados dos testes laboratoriais chamaram a atenção dos laboratórios clínicos, dos médicos e da própria Food and Drug Administration (FDA), agência de regulamentação de medicamentos dos Estados Unidos. A FDA divulgou uma comunicação de segurança em novembro de 20171 pedindo mais interação entre laboratórios, clínicos e pacientes sobre a importância de relatar o uso dessa vitamina para tentar mitigar o risco de resultados incorretos nos testes laboratoriais. No comunicado, a agência relatou uma morte associada ao excesso da vitamina, quando um paciente, com níveis elevados de biotina, apresentou resultados falsos de troponina, um biomarcador clinicamente importante para ajudar no diagnóstico de infarto do miocárdio. A biotina é uma vitamina do complexo B cuja ingestão adequada é de 30 mcg/dia2,3,4,5, de acordo com o Conselho de Alimentação e Nutrição da Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA. É possível obtê-la a partir da ingestão de alimentos como ovos, grãos integrais e amêndoas, além dos suplementos vitamínicos padrões do mercado, que costumam conter a dose de 30 a 40 mcg/dia potencial muito baixo de interferência nos resultados. O risco efetivo entra em jogo, relatou a FDA, com os suplementos obtidos sem receita médica, que podem ter até 650 vezes a dose diária recomendada da biotina. É esse nível elevado que pode causar um falso-positivo ou um falso-negativo nos testes.

“A vitamina, principalmente se ingerida em altas doses, pode interferir nos imunoensaios e causar resultados falsamente alterados nas dosagens hormonais, 25-hidroxivitamina D e marcadores cardíacos como a troponina. Em geral, apenas doses acima de 5.000-10.000 mcg/dia podem ocasionar resultados falsamente alterados”, afirma o patologista clínico e membro da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) Dr. Marcelo Cidade Batista. Ele reforça que laboratórios devem indagar especificamente os pacientes sobre o uso de biotina antes de coletar exames laboratoriais e recomendar a suspensão da vitamina por pelo menos dois a três dias (no caso de doses até 10.000 mcg/dia) ou uma a duas semanas (no caso de doses maiores ou pacientes com função renal comprometida), desde que a suspensão seja autorizada pelo médico do paciente. Alguns fatores podem explicar essa ingestão elevada de biotina. Popular no mercado da beleza, o alto consumo tem promovido a crença de que a vitamina consegue fortalecer o crescimento dos cabelos e unhas, apesar das poucas evidências clínicas a respeito. Em algumas situações, como na esclerose múltipla (EM), o uso elevado da biotina tem sido considerado útil, ainda que, nesses casos, também não haja uma terapia aprovada pela FDA6,7, mas sim um ensaio clínico de fase 3 em andamento que considera a utilização de altas concentrações da vitamina para formas progressivas da EM. Não há uma recomendação formal da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) para dermatologistas na hora de prescrever doses de biotina.

Confiança nos testes da Roche

Como forma de apoiar o pedido da FDA de maior interação entre laboratórios clínicos e médicos sobre a interferência da biotina nos testes laboratoriais, a Roche Diagnóstica criou o site biotinfacts.roche. com, que traz informações seguras e pesquisas que validam a segurança e confiabilidade dos resultados de seus imunoensaios, projetados com a interação estreptavidina-biotina, que tem sido utilizada por muitos fabricantes, incluindo a Roche Diagnóstica, no caso dos imunoensaios. Os testes da Roche Diagnóstica são protagonistas atualmente no mercado, por utilizarem uma tecnologia patenteada de eletroquimioluminescência (ECL), o que permite a geração de resultados rápidos, precisos, sensíveis e confiáveis. “Orgulhamo-nos da qualidade dos testes que oferecemos, uma vez que ela tem sido confirmada em diversos estudos científicos realizados no mundo todo, desde o advento da tecnologia Elecsys®, há mais de 20 anos, com o lançamento de seu primeiro analisador. A partir de 1996, todos os sistemas Elecsys® vêm continuamente marcando tendências na área dos imunoensaios. A cada segundo, cerca de 60 resultados são gerados no mundo inteiro com os ensaios Elecsys®, o que reflete a robustez de todos os testes que comercializamos”, afirma a gerente de Produto Imunologia da Roche, Ingrid Furlan. No caso dos relatos de interferência de biotina nos testes, outra vantagem que deixa a Roche à frente é o fato de seus imunoensaios fornecerem uma rotulagem clara de testes para garantir que médicos e laboratórios possam mitigar o risco de potencial interferência. Portanto, todas as bulas dos imunoensaios trazem a informação sobre a concentração de biotina na amostra dos pacientes com potencial de interferir nos resultados. Esses valores foram confirmados em um estudo realizado em 2017, mostrando que não houve necessidade de ações corretivas em suas bulas quanto aos valores de interferência da vitamina.

“Isso confirma a preocupação da Roche Diagnóstica em relação à qualidade dos produtos e confiabilidade dos resultados gerados. Não precisamos fazer nenhum tipo de correção ou adequação quanto a isso, diferentemente de alguns concorrentes”, relata a gerente. O estudo citado acima foi publicado no International Journal of Pharmacokinetics8. De acordo com as bulas da Roche, para os pacientes que estejam ingerindo altas doses de biotina (> 5.000 microgramas/dia), nenhuma amostra deve ser coletada em até oito horas após a última administração do suplemento alimentar ou dietético, o que acabaria mitigando o potencial de interferência. Esse tempo de espera é essencial nos resultados de testes precisos para pacientes que recebem tratamento com alta dose de biotina (mais de 5 mg por dia). Já em relação à preocupação com o aumento na venda de suplementos concentrados de biotina, os números revelam outro cenário. Nos EUA, dados da consultoria Nielsen9 apontam que a maior parte das vendas de suplementos de biotina atualmente é de doses menores que 2,5 mg, enquanto as vendas de doses de 5 mg diminuíram nos últimos três anos. E, embora as vendas de biotina tenham variado ligeiramente acima de um período de três anos (julho de 2014 a junho de 2017), as vendas no último ano (julho de 2016 a junho de 2017) diminuíram em relação aos 12 meses anteriores. “Estimamos que aproximadamente 0,5% de todos os suplementos atualmente comercializado no Brasil contêm biotina em alta concentração”, esclarece Ingrid.

Educação e estratégias laboratoriais

Para fazer frente a essa onda de relatos e casos de interferências relacionadas às altas doses de biotina, os laboratórios precisam ser líderes na educação de pacientes e provedores de saúde, como forma de mitigar o potencial de interferência não apenas da biotina, mas também de outras interferências em geral. A opinião é do professor associado do Departamento de Patologia e Medicina do Laborató- rio da Universidade da Califórnia na cidade de Davis (UC Davis), Dr. Nam Tran. “Os endocrinologistas na UC Davis perguntam ao paciente se há uso da biotina e gravamos isso em seu registro de saúde. Os líderes de laboratórios devem estar cientes dessa possibilidade e incluir como parte de seu trabalho os resultados discrepantes encontrados e fornecer soluções pragmáticas e realistas, mantendo a consciência situacional dessas questões. A biotina não é o primeiro nem será o último interferente que encontramos”, opina Tran. Algumas estratégias adotadas para os laboratórios não serem pegos de surpresa com resultados errôneos são a promoção de reuniões com a equipe laboratorial e o estabelecimento de equipes multidisciplinares para aprender a lidar com o tema, visando a uma melhor compreensão das tendências de suplementação de vitaminas e usos terapêuticos da biotina, além da participação ativa das mídias sociais como forma de disseminar conhecimento e informações a respeito da interferência da biotina. Sobre essas estratégias, Marcelo Cidade Batista explica que são os patologistas clínicos os principais facilitadores e multiplicadores de informações referentes a testes laboratoriais. Por isso, eles devem participar de reuniões clínicas e promover palestras dirigidas aos médicos, a fim de explicar os possíveis efeitos da biotina e outros interferentes sobre os testes laboratoriais. “Além disso, os laudos dos exames sujeitos a interferência analítica devem conter notas explicativas, alertando pacientes e médicos sobre possíveis falsas alterações nos resultados”, afirma. No Fleury Medicina e Saúde, por exemplo, pacientes são orientados a suspender o uso da biotina 72 horas antes da coleta de testes que utilizam a reação biotina-estreptavidina em seu desenho. “É preciso perguntar ao paciente, na hora de colher o exame, se há uso de biotina”, recomenda a assessora médica em endocrinologia do Fleury, Dra. Rosa Paula Mello Biscolla. Esse prazo de 72 horas é também o recomendado pela Sociedade Brasileira de Dermatologia.

A UC Davis10, por exemplo, estabeleceu um programa de vigilância para determinar o potencial de interferência com base em seus dados de registro médico eletrô- nico (EMR). Outra tática do programa na UC Davis é buscar implementar um protocolo de triagem de biotina. “Quando um médico nos contatar para um resultado que não corresponde ao quadro clínico para um ensaio baseado em biotina, usaremos esse protocolo de solução de problemas para determinar se existe interferência de biotina”, explica Nam Tran. Uma questão a ser abordada nesse cenário é que a concentração da vitamina em suplementos não é regulada e, portanto, a concentração pode variar e seu uso pelo paciente pode não ser consistente com o recomendado. “A FDA e outras agências reguladoras em todo o mundo devem fazer um trabalho melhor na regulação desses suplementos”, opina Tran.

Riscos da suplementação sem prescrição

Ainda que pareçam inofensivos, suplementos vitamínicos podem causar danos e o excesso de nutrientes pode ser tóxico, principalmente quando ingerido sem necessidades reais e indicações precisas. Ainda que a biotina seja do complexo B, que permanece pouco tempo no organismo e é facilmente excretado pela urina, é mais difícil chegar a níveis tóxicos quando suplementada. No entanto, alerta a nutróloga Dra. Andreia Guarnieri, o excesso de biotina pode trazer prejuízos à saúde como acne, alergias, diarreia e náuseas. A nutróloga reforça que as pessoas precisam ser informadas de que a suplementação nunca deverá substituir refeições ou alimentos. Mesmo no caso de determinados grupos de indivíduos mais propensos do que outros a ter problemas para obter biotina suficiente, como portadores de uma doença gené- tica rara chamada deficiência de biotinidase, alcoólatras e grávidas ou lactantes, é preciso informar ao profissional de saúde sobre o uso. “O passo mais importante é a correção da dieta, para somente depois avaliar se é necessária a suplementação de biotina. Complexos vitamínicos não devem substituir uma alimentação balanceada e tampouco ser consumidos sem orientação médica e supervisão profissional”, orienta a nutróloga.

Referências
1. https://www.fda.gov/MedicalDevices/Safety/AlertsandNotices/ucm586505.htm
2. https://www.mayoclinic.org/drugs-supplements/biotin-oral-route/description/drg-20062359. Acess on 5/26/2017
3. Institute of Medicine (U.S.) Standing Committee on the Scientific Evaluation of Dietary Reference Intakes. In: Dietary Reference Intakes for Thiamin, Riboflavin, Niacin, Vitamin
B6, Folate, Vitamin B12, Pantothenic Acid, Biotin, and Choline. National Academy of Sciences. Washington (DC). 1998:374–389.
4. EFSA Journal 2014;12(2):3580
5. European Commission. Opinion of the Scientific Committee on Food on the Tolerable Upper Intake Level of Biotin 2001. Available at: http://ec.europa.eu/food/fs/sc/scf/out106_
en.pdf Last accessed: July 2016
6. Peyro Saint Paul, Laure et al. Expert Opinion on Drug Metabolism & Toxicology 12.3 (2016): 327-344. Web. 28 July 2016.
7. Tourbah A, et al. Abstract presented at 68th American Academy of Neurology Annual Meeting, Vancouver, Canada.
8. Estudo do International Journal of Pharmacokinetics: Grimsey et al 2017 International Journal of Pharmacokinetics. doi: 10.4155/ipk-2017-0013
9. https://www.prnewswire.com/news-releases/roche-supports-fda-communication-about-potential-forbiotin-interference-with-lab-tests-300565232.html
10. https://biotinfacts.roche.com/webinar/ letter to the editor of Medical Laboratory Observer, Dr. Nam Tran, Director of Chemistry, POCT, and SARC Clinical and Quality Research,
Dept. of Pathology and Lab Medicine, UC Davis

Fonte: http://rspress.com.br/userfiles/projetos/rochenews/2018/01/